14.6.17

Campo da Bola

Ias ser o melhor extremo-direito do mundo ou,
pelo menos, da Serra da Vila, dizia eu profundamente
convencido das certezas que só os quinze anos
nos garantem. Tu achavas que eu ainda jogaria
no Torreense, sonho mais comedido mas fruto dessa
simpatia que sempre apresentavas com um sorriso.
Eu confirmei que não ia a lado nenhum,
mas tu és bem capaz de ter sido um dos que vestiu
a camisola amarela e os calções pretos com mais
orgulho e atacou, como quem sabe poder enganar
o mundo, todos os campos pelados do Concelho.

Ainda esta manhã tinha pensado há quanto
tempo não vou ao Campo da Bola, há quanto tempo
não subo a pé até ao ponto mais alto da aldeia,
onde sopra o vento ao ponto de quase voarmos e
queima o sol sem que nos possamos dele proteger.
No Campo da Bola só se deveria morrer de alegria,
de êxtase profundo, com golos, aplausos e festança.
Mas também se morre de desespero, como uma bola
que falha o alvo. E se até aos melhores do mundo
acontece, porque não nos haveria de acontecer a nós,
aqueles que não vão a lado nenhum.

16.3.17

Ferida nas asas

Ficaste cheio do cheiro a liberdade
não queres o campo, recusas a cidade.
Sabes quão feias as mentiras são,
não dás o céu, não chores pelo chão

Partiste cedo e cedeste à ausência, 
seres como és é para ti violência.
Sabes quão feias as verdades são
já foste ao céu, ficas bem no chão. 

Refrão: 
E olha, para mim, 
no espelho que ainda tens em casa
Olha por mim, 
não voo,  estou ferida nas asas. 

não voo,  estou ferida nas asas. 

15.3.17

Crime e Castigo

Vai dar trabalho estarmos vivos
Ou escondermos a solidão
Se cada noite é um castigo
Muito maior é o perigo
De ter-te assim  à mão

Vai dar trabalho sermos unidos
Ou tentarmos a ilusão
Se cada dia é um abrigo
Em que quero estar contigo
Desfazendo a tentação

Que espécie de sal
Sobrará no final,
Nós tão ágeis, criativos
Escolhemos crime ou castigo
Escolhemos o quê,
Afinal?

(2010)

14.3.17

Final da inocência

Como quem se atira
De encontro a um espelho
Aqui me surpreendo
Na antecâmara da minha loucura
Vai formosa
E insegura.

Eu recolho as palavras
Quando nascem da tua boca
E colecciono cada gesto
Inventado na tua ternura
Tão selecta
E bem segura.

Sente-lhe o calor
Tão mais perto do inferno
Abrasa-te os sentidos
Tamanha é a imprudência
Vai formosa
E tão segura

No final da inocência

(2010)

13.3.17

Baile de Sol


Usa o meu corpo
Para o teu baile de sol
E na noite eu sou farol
Do desejo

Vem num arrepio
Acender a minha pele
Nesta guerra sem quartel
Definido

Traz as tuas mãos
Para a roda da ternura
E conquista-me a cintura
Nesta dança

Bebe dos meus lábios
Oceanos de prazer
E na noite eu vou ser
Toda tua

Ainda sou feitiço desta noite
em que descubro o prazer
De ser
Em ti

Ainda sou loucura deste sol
onde eu fervo só pra
te ter
a ti

(2010)

11.3.17

Onde não estás

Onde eu te toco
É onde o silêncio existe
Antes da explosão

Onde a pele se desoculta
Mesmo se para lá
De todas as fibras

Onde os dedos
Ainda caminham
Na geometria do teu pescoço

Onde tu não estás
Eu sei
É o encontro
Do que faz
Sentido
Para mim
Ter-te assim
Onde tu não estás.

Onde eu te beijo
É onde o deserto desiste
Antes do aguaceiro

Onde tu permites
Que descaia breve
A mansidão do gesto.

Onde os lábios
Se reencontram

Com a geometria do teu pescoço.

(2010)

13.1.17

Ator secundário

Tu perdes todos de quem gostas, ao ritmo das rodas-dentadas da carruagem, num comboio com destino para lugar algum. Era ele o homem perdido que caminhava em busca de uma coisa que ninguém por perto compreendia. Talvez por isso parecesse sempre tão calado, tão sentido, tão ausente. O seu mundo era um outro, onde vestia a casaca de uma personagem e o ser estranho era uma espécie de cartão-de-visita para o mundo. Tu perdes todos de quem gostas, cantavam-lhe ao ouvido, como há certas músicas que não conseguimos tirar de dentro da cabeça, como há memórias de que não nos sabemos proteger. O comboio seguia, num homem de face imperturbável, pronto a ser herói da sua causa: ator secundário da história do mundo.

12.1.17

No tempo das fotografias

Sentia-se puxado para dentro das fotografias e, consoante a época, cada uma das imagens gerava em si sensações distintas. As fotos do início do século provocavam-lhe uma sensação de miséria, como se a fome lhe crescesse dos olhos. Pelos anos cinquenta, sentia já alguma capacidade de esperança, mesmo que toda a esperança o faça chorar. Nas fotos mais recentes, dos anos setenta, a sua empatia com aquelas ruas amplas e limpas permitiam-lhe respirar. Ainda assim, uma sensação qualquer de fim-de-semana isolado, de dia de visita ao belo construído, não uma vivência diária. Porque o dia-a-dia seria, com certeza, uma prisão. Uma prisão de onde lutaria para sair, apenas para se sentir mais preso a seguir. A fuga, no tempo das fotografias, não seria possível.

12.12.16

Brevemente...

O volume Famosas Últimas Palavras junta três livros que refazem o caminho poético de Luís Filipe Cristóvão. A cada um deles, um tema que serve apenas como despiste de uma leitura de pré-conceitos. Na “Fala do Artesão” são os cheiros da terra, entre o rural e o marítimo, que nos invadem a boca. Boca que explode em “Fronteira”, numa dimensão mais marcadamente política dos seus escritos. Tudo se encerra com “Casas Funerárias”, um pequeno livro de morte, onde o título do conjunto acabará por soar a inevitável ironia de quem sabe não vir a ser nem famoso, nem escutado, nem morto.

Brevemente, na Editora Jaguatirica


30.9.16

MCMLXXIX

Como a luz, num caixão, escondida para sempre, 
ou as palavras engolidas com um copo de água, 
depois das refeições, até que o silêncio se instale
por dentro e não saibas sequer como falar, no dia
em que finalmente entendes o que tens para dizer. 

22.8.16

Porta

Uma porta é uma porta, dizes tu quase calado, enquanto
tentas perceber se há barulho do outro lado, uma voz ou
um movimento, qualquer coisa que denuncie a existência
de uma razão de ser para a porta, aquela porta, fechada

à tua frente. Porque se bem te lembras uma porta é uma
porta, para teres a certeza procuras no dicionário e lês, 
entrar, sair, acesso, admissão, solução, expediente, tudo
coisas para passar, onde há uma porta há o deste lado e

o do outro. Mas tentas entender e para esta porta não há
sinal de nada. Já perguntaste até ao médico se não será
um problema do ouvido, mas não. Tudo está certo com a

audição, com certeza será questão de entendimento, eras
tu e a bata branca e um sorriso que se prepara para buscar
a razão para, de entre todas as portas, a tua, estar fechada.

19.8.16

Vintes de agosto

Aos vintes de agosto chovia em Santa Cruz e
nem sequer havia quem fosse connosco andar
de bicicleta ou jogar à bola na areia, como nos
outros dias de verão em que ainda não eram

vintes, nem talvez agosto, mas também chovia
em Santa Cruz. Eu olhava o vazio pela janela
do quarto e voltava a deitar-me no chão, umas
caricas entre os dedos, a inventar jogos que

ficavam registados em cadernos com os nomes
dos jogadores, os resultados, uma passagem do
tempo em versão acelerada que nem os vintes

nem agosto conseguiam parar. Uns dias depois,
voltaria ao calor e aos amigos da escola, mas o
olhar ficaria para sempre preso no vazio da janela.

9.8.16

35 graus em Santa Cruz

Como um gelado que se derrete sobre a
mesa da esplanada na tarde de verão onde
os olhos se fecham e as vozes que se ouvem
são apenas uma repetição de outras tantas 

férias que já só têm lugar na memória. Lá mais
para cima, um casal de poetas esconde-se à
sombra, comendo pequenas folhas de alface
e seguindo, à risca, as indicações do médico

que aconselhou o consumo moderado de álcool
e açúcar. Caipirinhas nunca mais, confessa o
empregado de mesa, enquanto quatro senhoras

sorriem e pensam como seria bom voltar a ter
dezoito anos para poder olhar aquele jovem
sem culpa. Como um gelado que se derrete. 

8.8.16

Português sem filtro

Com um martelo quebra as montras onde vê
a sua própria imagem refletida, incapaz de fazer
as pazes com os seus próprios falhanços. Exige
dos outros aquilo que não consegue para si próprio, 

ensaia o discurso de pai inserindo sentenças nas 
cabeças calvas dos que se dignam a ouvi-lo. Fala, 
a maior parte do tempo, sozinho, sem ninguém que 
se determine a cumprir-lhe as indicações ou a beber-lhe 

os conselhos. Não entendeu ainda que com martelos 
não se caçam borboletas, nem se escrevem poemas 
em folhas brancas de computador. Não entendeu, 

sequer, que o lá fora dos velhos clássicos é ainda 
mais seco e inócuo do que o seu próprio comércio, 
apenas filtrado pelo tempo - o que tudo cura.

Mínimos Olímpicos

Não há como evitar a confusão, nem como dormir
sossegado na aldeia olímpica em que se transformou
esta parte da cidade. Não há já braçadas que nos
livrem de uma sorte que nos empurra a competir

com os nossos próprios fantasmas, não há corrente
de bicicleta que não salte sobre o empedrado onde
antigamente desenhávamos apenas o caminho
para as férias. Não há como evitar línguas obscuras,

nem como perceber todas as mensagens, não nos
prepararam para que os jogos fossem tão mais
exigentes para nós próprios do que para aquilo

que se vai repetindo em slow motion na televisão.
Não há como evitar a confusão, pensamos nós,
falhando os mínimos determinados pela federação.

O construtor

Ele já sabe o que é estar às portas da
morte sem que ninguém o deixe entrar,
tal como sabe como se escreve mil vezes
o mesmo poema até que tudo lhe pareça

muito mais dor do que a própria dor que sente.
Ele já correu pelas escadarias da mente as
maratonas do desejo e entende perfeitamente
que do silêncio só pode nascer incompreensão

ou outra qualquer coisa que nos impeça de crescer.
Gostar sozinho parece bonito, como um quadro
grande na parede de um museu, mas que nada

diz ao artista que não seja do passado das coisas
como elas podem ser vividas - de mãos e braços
abertos para a complexa construção do amor.

2.8.16

O caminho

Se estás sempre a aprender, porque nunca
aprendes, pensas tu com o peito inquieto e
a boca seca, a garganta que dói, o sol já te
queima por dentro e ainda nem começou bem

o verão. Se o mundo se constrói pela palavra, 
porque estão estas sempre a derrubar-te, seja
do poiso incerto onde te ergues, seja do chão 
pantanoso que pisas, a cada dia onde ainda te

procuras sem nunca, nunca, te encontrares. Se
o resto do caminho vai ser feito apenas para que 
morras devagar, as flores deixa-as ficar quietas no 

seu canteiro, não as arranques nem guardes num 
vaso, as cerimónias não nos servem de nada, se o 
resto do caminho vai ser só o que poderia ter sido.